A vitória do carinho
Seja qual vier a ser o desfecho da eliminatória com o Mali que decide um lugar na CAN 2026 de futebol feminino, a seleção de Cabo Verde já conseguiu um importante triunfo na 1ª mão.
Onze dias depois de ter servido de palco para o maior feito de sempre do futebol cabo-verdiano, o Estádio Nacional voltou, na sexta feira, 24, a estar associado a um outro grande momento. Registou a melhor assistência de sempre em Cabo Verde para uma partida de futebol feminino.
É certo que grande parte daqueles que se deslocaram ao Monte Vaca não foi por mera vontade espontânea. Havia nas bancadas centenas de estudantes dos liceus da cidade da Praia que foram dispensados e levados para poderem transmitir o seu apoio à seleção. E souberam fazê-lo muito bem, com alegria, cânticos e aplausos constantes.
Mas não foi só a juventude recrutada das escolas secundárias, longe disso. Mesmo que o jogo tenha começado às 15h00 de um dia de trabalho, e sem a tal tolerância de ponto que muita gente foi pedindo ao longo dos dias que antecederam à partida, notou-se, ainda assim, uma boa afluência ao estádio. A bancada coberta praticamente ficou cheia. E ainda se viu uma interessante mancha de apoiantes na bancada descoberta, do lado oposto.
Num passado recente assistimos a uns tantos jogos dos Tubarões Azuis sem a moldura humana que se viu na sexta-feira no “Shark Arena”. Basta lembrar, por exempo, o Cabo Verde x Líbia já em plena campanha de apuramento para o Mundial 2026, disputado em junho de 2024. Aquele aspeto desolador das bancadas deve ter desanimado os jogadores que, coitados, já vinham fragilizados após terem sofrido, três dias antes, uma goleada de 4-1, nos Camarões. O irónico disso é que os Tubarões Azuis venceram por 1-0, e a partir dessa 4ª jornada não perderiam mais qualquer duelo no seu grupo. E seria com esse mesmo Estádio Nacional completamente abarrotado que, 14 meses depois, a Seleção orientada por Bubista viria a festejar a inédita qualificação para a Copa do Mundo ao vencer na 10ª ronda a Eswatini por 3-0.
Na tarde da passada sexta-feira, as portas do Estádio Nacional voltaram a abrir-se. Agora para uma outra seleção, a feminina de futebol. Em jogo estava - e ainda está - um inédito apuramento para uma outra Copa, a das nações africanas. Com toda a nação cabo-verdiana a digerir ainda a euforia da histórica ida ao Mundial, o efeito contágio na antecâmara do duelo entre cabo-verdianas e malianas foi evidente. Nos orgãos de comunicação social e nas redes sociais viu-se e ouviu-se muita gente a exigir tolerância de ponto, tal como havia sido concedida dias antes para o embate dos rapazes. Figuras públicas de diversas áreas, da política, da música, do desporto… vieram dar a cara a pedir apoio às nossas Tubarões. Uma mobilização em proporções nunca dantes vista.
No relvado as coisas não correram da forma como os cabo-verdianos desejavam. Uma vitória na primeira mão da eliminatória era fundamental. Não sendo possível, um empate seria menos mal. O nulo perdurou até bem perto do fim. Na ponta final veio um livre direto para as malianas. A guarda-redes Jacinta defendeu para a frente e, na recarca, o Mali fez golo. O calor no Estádo Nacional virou gelo. Minutos depois o jogo acabou. Jacinta logo sentiu o peso da culpa sobre os ombros e manteve-se cabisbaixa junta a sua baliza. As colegas de equipa foram de imediato ter com ela para consolá-la. O público também demonstrou complacência. Foi bonito ver tantas mensagens de encorajamento vindas das bancadas, sobretudo de um sector ali mais perto do relvado. Chamaram a guardiã, abraçaram-na, com carinho. Jacinta terá ficado mais aliviada a notar tanta compreensão.
Mas não foi só a guarda-redes. Toda a seleção foi tributada, no fim com muito carinho dos adeptos. O bairro de Eugénio Lima enfiou-se nas bancadas com cartazes dirigidos a Evy e a Leia, duas filhas-orgulho dessa comunidade. Ivânia Moreira “Vá”, viu do relvado a zona de Achada Ponta (Santa Cruz) a orgulhar-se da sua menina com cartazes a mostrar seu rosto. Irlanda Lopes tinha foguenses nas bancadas a fazer ecoar no peito o orgulho do burcan. Crianças, muitas crianças e adolescentes, sorridentes, solicitavam um autógrafo ou uma sélfie a esta ou aquela jogadora.
Cabo Verde perdeu o duelo caseiro com Mali. Na terça feira, 28, joga-se a segunda mão, em Bamaco. Se antes já era complicada, a eliminatória está ainda mais difícil. Mas, quer a selecionadora quer as jogadoras acreditam. Disseram todas que isto ainda não acabou, que está tudo em aberto.
Seja qual vier a ser o desfecho desta eliminatória que decide um lugar na Copa Africana das Nações Marrocos 2026, uma coisa é certa: a seleção feminina conseguiu na sexta-feira uma importante vitória, a do carinho do seu público. E essa é ainda mais significativa quando conseguida na adversidade. Porque, no sucesso… é fácil!





